Meu filho foi desprezado por outra criança: o que posso fazer?

Vamos falar sobre dar noções de dignidade para as nossas crianças?

Recentemente, aqui em Brasília, aconteceu um fato triste no qual um pai segurou uma criança para o seu filho bater. Pelo que entendi, o pai – de algum modo – achou que o filho teria sido ridicularizado, injustiçado e se achou no direito de fazer isso.

Agora a pouco eu li sobre um segundo caso no Goiás, de um pai que jogou no chão um menino de 5 anos porque, segundo ele, a criança estaria fazendo seu filho – pelo vídeo, aparenta ser um bebe de pouco mais de 1 aninho – de bobo.

As duas situações aconteceram em áreas comuns de condomínio, bem parecidas com a minha realidade.

Desde que meus filhos nasceram, eu sempre penso em situações assim. Algumas vezes passamos por coisas parecidas: de crianças maiores querendo ridicularizar ou mesmo machucar os nossos filhos. De outras crianças rejeitarem e até mesmo desprezarem a companhia e declararem expressamente que não queriam brincar com os nossos.

Qual o nosso papel?

Já ouvi gente dizer que é normal, que as crianças têm que aprender a lidar com isso sozinhas. Que faz parte etc etc etc. O meu mais velho – que foi quem mais passou por situações assim, embora tenham sido poucas –, fez 4 anos recentemente. A mais nova não passou tanto porque já tinha o irmão para brincar.

Mas o ponto ao qual venho refletir é sobre a nossa postura, enquanto pais, diante de situações assim. Agredir o filho dos outros, brigar, segurar o filho dos outros para o meu filho dar uma lição? Tudo isso, para nós aqui, está fora de questão. Porque não temos esse direito, porque é horrível e nada efetivo do ponto de vista educativo para nenhum dos lados.

Como ensinar nossos filhos sobre sua dignidade?

Nosso papel é dar aos nossos filhos noções, desde bem pequenos, sobre a própria dignidade. Se eu fico dizendo para as minhas crianças que elas têm que ficar suportando bullying, mendigando espaço na brincadeira e no grupo onde foram rejeitados e desprezados [isso acontece demais, gente! não se iludam!], aceitando apanhar “porque a vida é assim mesmo”, eu vou, de algum modo, ensinar que – lá na frente – é tranquilo apanhar do namorado, é tranquilo maltratar as pessoas, os idosos, automultilar-se.  A vida e a dignidade não valem muita coisa. Isso mesmo. É isso que nossos gestos e palavras ensinam.

Por mais fatalista que pareça, as crianças não compreendem as lições subjetivas com a mesma clareza que os adultos [isso só vai acontecer por volta de 8… 9 anos]. Para elas, a atmosfera, os gestos, as respostas e os retornos da vida real falam muito mais do que um sermão “muito muito bem dado”.

Compreender a própria dignidade é um valor. E um valor se constrói na vida, mesmo.

Mas, então, o que fazer?

No nosso caso, falamos abertamente: se o colega não quer brincar com você, vamos ficar perto dos amigos que gostam de você e que você gosta também. Simples. Saímos de cena. Sem teorizar, sem muita explicação ou erudição. Quanto ao filho alheio, eu posso, no máximo, chamar atenção e conter – em caso de agressão. Mas, infelizmente ou felizmente, não posso educá-lo.

Crianças brigam, se batem, se mordem. Isso faz parte. Entre os irmãos, os amigos do condomínio, da escola etc, isso acontece. Eu sei que acontece. Se nós, adultos, temos dificuldades em manter o controle diante de frustrações, as crianças tendem a ter mais limitações neste sentido.
Em casa mesmo, há momentos em que um não quer brincar com o outro: como lidamos? Vamos deixar o irmão quietinho, daqui a pouco ele brinca com você.

Faz parte, também, aprender a respeitar os tempos e os processos do outro.

O problema é quando há desprezo e reincidência de violência física constante.

Bater, agredir o filho dos outros é um sinal claro de que você não amadureceu. Seu filho, infelizmente, vai colher dessa sua atitude algum dado para compor os valores que carregará na vida. E eu sinto muito, mesmo, por isso.

Vamos melhorar nisso?

 

Luto materno: não ignore a dor da morte

A notícia de uma gravidez é, normalmente, celebrada e festejada. Mas como podemos viver o luto diante de uma experiência tão cheia de vida? Como reagir quando vivemos a perda de um filho, sobretudo se este não chegou nem a nascer?

Este texto não é nenhum manual, não sou psicóloga e também não passei por essa triste experiência. E não pretendo responder essas perguntas.

Sou apenas uma mãe que, hoje, chorou pela partida de um bebezinho que não era meu, mas era uma vida.

Perder um filho que não nasceu pode significar forçar o coração a interromper sonhos, expectativas, planos, cores, nomes, preferências. Um futuro.

Ainda que os pais sejam jovens e aquele seja o primeiro: é uma pessoa. Ainda que os pais não sejam mais tão jovens e tenham 10 filhos: aquele bebê que se foi é, sim, uma pessoa.

E, pelo amor de Deus, jamais diga para alguém que perde um filho: “você terá outros”, ou “cuide dos que você ja tem que essa dor passa”. Não!

Sejamos aqueles que não têm medo de tocar no assunto, não por curiosidade mesquinha, mas para experimentar aquele calvário junto daqueles que perderam seus bebês, sobretudo se são pessoas próximas a nós. Choremos com quem chora, soframos com quem sofre (Cf Rm 12,15). Ignorar a dor do outro só faz com que essa dor seja etiquetada com o rótulo de “dor sem importância, podemos mudar de assunto”.

Para as mães e pais, a necessidade do luto. De se permitir ter o coração atravessado pela dor da morte, de chorar a perda daquele filho, daquela vida. No livro “O Amor que dá vida”, de Kimberly Hann, a autora, que é mãe de muitos filhos, inclusive de bebês que não chegaram a nascer, fala da importância de não fugir do tema, de não ignorar a morte.

“Quando não há um corpo que abraçar ou enterrar, as pessoas costumam subestimar a perda sofrida pelo casal, e isso aumenta-lhe a tristeza. Se nos solidarizamos com essa perda, podemos aliviar o sofrimento desse casal.”

Kimberly também sugere que se dê um nome ao filho não nascido. Mesmo que não tenha dado tempo de saber o sexo. Seria um caminho intuitivo, desses que, quando somos pais e mães, Deus nos ilumina a seguir. Senhor, que nome posso dar a este filho? Isso pode ajudar na vivência do luto e na experiência de colher o sentido da experiência vivida.

Que Deus abençoe cada família que hoje trilha este caminho de superação e dor. Que o Senhor da Vida faça brotar em cada um de nós a esperança pela Vida Eterna.

Um abraço

Meu primeiro Calendário de Advento

Olá, pessoal!

Desde o ano passado, quando amigas muito queridas partilharam do quão rica foi a vivência do Advento com o auxílio do Calendário,  eu fiquei com muita vontade de fazer.
Em 2017 não deu. Mas agora eu, embora atrasada, coloquei a mão na massa e fiz. Estou rezando para conseguir cumprir fielmente com as crianças o que nos propomos.
De todas as dicas que recebi, o que ficou mais evidente foi o fato de as atividades precisam ser adaptadas para a realidade de cada família, devem ser simples – pra evitar desânimo! – e compatíveis com a rotina, o ambiente e a logística.

Como fazer?

Você pode simplesmente anotar e cumprir dia a dia com sua família, ou pode fazer um mural (como eu fiz), ou num caderninho… Veja como está a sua disposição e também que tipo de coisa estimula mais os seus filhos.

Eu fiz o mural e coloquei na frente da nossa mesa. Lá é onde fazemos todas as refeições, onde eles brincam de massinha e fazem outras atividades. Fica fácil de ver e eu ACHO que vai mantê-los animados.

Usei envelopes – que cortei ao meio –, cola com gliter, EVA com gliter. Colei na parede e pah! Virou isso aqui…

 

Mas tem gente que usa post-it, álbum de fotos, varal de fotos…

Onde se inspirar?

A primeira vez que ouvi falar sobre Calendário do Advento foi no blog da Luciana Lachance.
Além de dar sugestões de atividades, ela indica livros que podem ser lidos durante essa época do ano.

Minha lista

1- começar a leitura do livro “Um Conto de Natal” | A leitura do livro será dividida nos 24 dias;
2- enfeites, Coroa de Advento e Árvore de Natal e presépio;
3- separar brinquedos para doar;
4- fazer um bolo para o Menino Jesus;
5- Ler o evangelho da anunciação
6- Colorir cenário da anunciação
7- ouvir um canto de Natal;
8- fazer biscoitinhos de Natal e visitar decoração natalina em algum ponto da cidade;
9- dar esmola para um pobre e visitar o Santíssimo Sacramento antes da missa;
10- confeccionar cartões de Natal para a família e para os vizinhos;
11- terminar os cartões;
12- Fazer presépio de massinha de modelar
13- Cantar e rezar diante do presépio;
14- pintar com tinta desenhos de Natal;
15- Escolher um amigo para presentear;
16- primeiro dia da Novena de Natal;
17- segundo dia;
18- terceiro dia;
19- quarto dia;
20- quinto dia;
21- sexto dia;
22- sétimo dia e assistir a vovó cantar no coral de Natal;
23- oitavo dia;
24 – nono dia e Missa;
25- Missa de Natal.

Leitura diária da hora de dormir: São Nicolau e as barras de ouro – William Bennett – Vol. 1

No mais, vou tentando atualizar pelo Instagram. <3

@mae.dascrias

Um abração!

Deus abençoe

7 coisas que aprendi sobre ser mãe

1. Que a maternidade é essencialmente boa. Trazer um ser humano ao mundo, participar da criação divina de modo tão intenso é, por si só, um milagre. Acontece que milagres nem sempre excluem a possibilidade de haver sofrimento envolvido em seu processo. Louvar e agradecer por isso, pela dor e pelo amor, nos ajuda a viver nossa missão;

2. Dói. Dói. Amar dói. Ser mãe dói. Ser pai dói. Dói ver o filho sofrer, dói ver o filho crescer. Dói quando ele deixa o peito, quando ele pega o peito (às vezes machuca), quando ele não cabe mais no seu colo, quando muda do berço para a cama. Quando muda de cidade, quando escolhe errado, quando não te ama. Quando te ama. Quem nunca chorou de dor e de alegria ao mesmo tempo? Seja fisicamente ou emocionalmente, dói. Rejeitar o sofrimento só faz com que ele seja estéril. Se for pra sofrer, que seja participando dos sofrimentos de Cristo. Desse jeito vale muito!

3. Autoconhecimento. Sim. Quando as crianças chegam, a gente começa a se enxergar melhor. Nossas virtudes, mas sobretudo nossos limites e pecados. A gente descobre também que tem mais força do que imaginava pra ir além das nossas misérias e egoísmos, vê o quanto necessita da graça de Deus para colaborar com a felicidade plena dos nossos filhos. Caso contrário, é receita de fracasso para toda a família;

4. Descobrimos os nossos valores. Não significa que não ter filhos seja o mesmo que não ter valores. Mas quando somos pais, sempre nos deparamos com momentos em que devemos nos posicionar – às vezes indo contra uma cultura, ideias passadas em nossa criação e que desejamos viver de outra forma, experiências que adquirimos até ali – e lutar pelo que acreditamos que fará de nossos filhos homens e mulheres virtuosos. E não apenas nos perguntamos, mas encontramos os nossos valores!

5. Buscamos a ordem. Ou deveríamos buscar. Quem me conhece sabe o quanto eu sou desorganizada e às vezes bagunceira, mesmo. Mas depois que eu casei (com um marido organizado e disciplinado, graças a Deus! ) eu fui me deparando com a necessidade da ordem na minha vida e na minha família. Às vezes, em nome da “#maternidadereal”, vejo pessoas enaltecendo a sujeira, a bagunça, a desordem e o caos como se fossem atributos, condições que devem ser assumidas como ordinárias e da classe: “aceita que será assim para sempre”. E não é por aí. É verdade que depois dos filhos, os padrões mudam, mas como é que vamos formar cidadãos que deixarão coisas boas neste mundo se não somos capazes de oferecer a eles o valor de perseguir a excelência e a ordem? Vejam bem: perseguir, ter por meta, caminhar para. É disso que estou falando. (Meu status é este: buscando a perfeição no amor e nas coisas básicas da vida. Até aqui meu sobrenome foi desordem.)

6. O casamento passa por ajustes. Só tenho três filhos e sou capaz de testemunhar que, quando eles chegam, aumenta o amor, mas pode aumentar também as tensões. É nessas horas que me lembro de um conselho que recebi e não me lembro mais de quem: antes de ser mãe, sou esposa. Não que estas realidades devam caminhar separadas e em ruptura, como se o “ser” pudesse ser confundido com “atividades de mãe”, “tarefas de esposa”. Não é isso. A fonte da paciência, da ternura, da vontade de ser alguém melhor, vem do Amor de Deus. Sendo o meu esposo o meu “primeiro outro”, experimento em seu abraço e acolhimento a cura do Amor de Deus. Se este canal não é cuidado e valorizado quando chegam os filhos, a tendência é um fechamento que esteriliza toda e qualquer iniciativa de crescimento humano e espiritual. Então, vamos nos amar, nos acolher! Não tem coisa melhor para os filhos do que ter pais que se amam.

7. Ter Deus como herança. Aqui eu não preciso me alongar. O meu amor é imperfeito, minha paciência é limitada, meus pecados são muitos. Minha maternidade é insuficiente. Jamais posso achar, num acesso voluntarista, que eu (e o pai) sou o bastante na vida dos meus filhos. E que o meu amor é suficiente ou que sou capaz de impedir que eles sofram. Nenhum mortal é capaz de suportar este fardo. Por isso, minha gente, aproximemos nosso coração de Deus e levemos nossos filhos conosco. “Só Jesus de Nazaré é capaz de satisfazer todas as aspirações do coração humano”, disse São João Paulo II.

Deus abençoe vcs!
Shalom

Narlla

Cama compartilhada: qual o problema?

O que tenho aprendido sobre a cama compartilhada e alguns pacotes que parecem vir junto com o beta positivo.

Quando meu primeiro filho nasceu (hoje ele tem 2a8m), eu e meu marido fomos conversando e definindo algumas coisas que gostaríamos de fazer com relação aos primeiros meses de vida. E isso a gente faz constantemente, acredito que seja normal nas famílias com filhos. Às vezes o esforço e pra mudar um pouco o assunto, rs.

A ideia inicial era manter o bebê em nosso quarto nos primeiros 6 meses de vida. Ganhamos um bercinho que se acopla à cama e ele ficava ali, juntinho de nós. Mas com 2 meses o menino já não cabia mais neste bercinho e migrou para o quarto. Dormia incomparavelmente melhor. Continuou acordando e mamando de madrugada. Vez ou outra adormecia conosco na cama.

Como sempre pratiquei amamentação em livre demanda e exclusiva ate o sexto mês, estar conosco ali seria bom pra ele e pra nós. E era gostoso senti-lo tão próximo. Nós sabíamos que este momento, assim como os que se seguiriam até o marco que finaliza a primeira infância (que ainda está em vigência com nossos dois filhos), eram decisivos para o desenvolvimento emocional e afetivo deles. E que era preciso investir pesado na formação dos vínculos mais importantes que eles levariam para a vida: conosco e com Deus.

Já partilhei aqui que minha segunda gestação foi bem próxima da primeira. Então, por diversas vezes, dormimos todos juntos no nosso quarto. A diferença entre o Tomé e a Aurora é de 1 ano e 3 meses. Ou seja, quando a caçula nasceu, o primogênito ainda era um bebezinho. Todos precisavam de carinho, atenção, cuidado e afeto. Tomé teve terror noturno assim que a irmã nasceu. Conversando com uma psicóloga amiga e a partir de algumas leituras, pode ter sido uma resposta à nova integrante da família e também comum ao período que ele vivia (terror noturno é comum nessa idade de 1 ano e 3…4… 5 meses).

Este novo contexto nos rendeu muitas noites acordados, com colchão no chão pra poder socorrer mais rápido ou todos na nossa cama. Enfim. Foi um intenso período de ajuste, mas foi um tempo feliz e cheio de graça, de oportunidades de vivermos a generosidade.

Eu sempre prezei MUITO por rotina. Mesmo que tenha optado (porque eu acredito muito nos benefícios) a livre demanda – que significa oferecer o peito pro bebê quando ele quiser -, eu fui estabelecendo alguns marcos para os meus filhos. Sem forçar, sem enlouquecer e sem exigir deles o que eles não eram capazes de oferecer. E também porque crianças precisam de rotina. Hora de banho, de lanche, de comida, de brincadeira x, y, de passeio. Isso os torna seguros e afeta positivamente no desenvolvimento deles.

Mas por que estou dizendo tudo isso? Porque tenho visto pais e mães entrando no limite do estresse por causa da cama compartilhada e outras “exigências”. Porque foram orientados que só assim seus filhos cresceriam saudáveis e emocionalmente estáveis. E que o contrário seria um prejuízo sem número para a família, para a sociedade, para o mundo, para a posteridade e para si mesmos. Um pacote de ideias que vão da cama compartilhada a “nunca diga não para o seu filho” e que força as famílias a uma situação insustentável (inclusive à ideia de que é impossível ter mais filhos). Não hesito em afirmar que muitos pacotes ideológicos de teorias sobre maternidade acabam, literalmente, inviabilizando uma família (numerosa, principalmente). Aí muita gente acaba acreditando na mentira de que os filhos destroem casamentos.

Por outro lado, acho importante destacar também que quando os meus filhos demonstraram que precisavam (precisar em caráter de necessidade, mesmo – frio, doença, pesadelo, saudade louca e desmedida, rs ) eles foram acolhidos em nossa cama. E quando a gente ficou com preguiça de levar de volta para a cama ou quando sentíamos, todos, que era pra ficar todo mundo ali, juntinho, curtindo um chamego.

Narlla, você pratica cama compartilhada? Quando são muito pequenos, sim. Via de regra, não.

Mas por que? Porque eu penso que as crianças precisam da referência de um espaço que pertence a elas. No caso, o quarto. E isso favorece o repouso e a intimidade conjugal. Eu poderia encerrar aqui, mas vou continuar.

Não é uma lei, não é mais uma teoria pra encher a cabeça das mães e pais. É uma observação que eu faço e também uma auto-crítica. Um dia, com um filho só, eu achei que estava super ok deixar meu filho dormindo na minha cama, entre eu e o papai, a noite toda e todos os dias da semana. Mas fui percebendo que não estava ok, que não estava fazendo bem pra nós e que eles eram capazes de acolher isso com tranquilidade. E que eu não posso e não devo subestimar meus filhos. Eles são capazes e precisam de ajuda para isso. Há um espaço e um tempo para todos.

Há uma leveza que não se enquadra em algumas regras que colocaram sobre ser pai e mãe. Há uma beleza em acolher os filhos todos no leito do casal. Há, beleza, também em dizer que ali é a cama do papai e da mamãe. Há beleza nas concessões, mas a ordem é bela, justa e necessária. E faz bem. Enfim… A virtude está no meio.

Essa é a minha experiência.

Que Deus os abençoe

A imaturidade no amor

Rafael Llano Cifuentes

Hoje, considera-se a satisfação sexual autocentrada como a expressão mais importante do amor. Não o entendia assim o pensamento clássico, que considerava o amor da mãe pelos filhos como o paradigma de todos os tipos de amor: o amor que prefere o bem da pessoa amada ao próprio. Este conceito, perpassando os séculos, permitiu que até um pensador como Hegel, que tem pouco de cristão, afirmasse que “a verdadeira essência do amor consiste em esquecer-se no outro”.

Bem diferente é o conceito de amor que se cultua em nossa época. Parece que se retrocedeu a uma espécie de adolescência da humanidade, onde o que mais conta é o prazer. Este fenômeno tem inúmeras manifestações.

Referir-nos-emos apenas a algumas delas:

– Edifica-se a vida sentimental sobre uma base pouco sólida: confunde-se amor com namoricos, atração sexual com enamoramento profundo. Todos conhecemos algum “Don Juan”: um mestre na arte de conquistar e um fracassado à hora da abnegação que todo amor exige. Incapazes de um amor maduro, essas pessoas nunca chegam a assimilar aquilo que afirmava Montesquieu: “É mais fácil conquistar do que manter a conquista”.

– Diviniza-se o amor: “A pessoa imatura – escreve Enrique Rojas – idealiza a vida afetiva e axalta o amor conjugal como algo extraordinário e maravilhoso. Isto constitui um erro, porque não aprofunda a análise. O amor é uma tarefa esforçada de melhora pessoal durante a qual se burilam os defeitos próprios e os que afetam o outro cônjuge[…]. A pessoa imatura converte o outro num absoluto. Isto costuma pagar-se caro. É natural que ao longo do namoro exista um deslumbramento que impede de reparar na realidade, fenômeno que Ortega y Gasset designou por “doença da atenção”, mas também é verdade que o difícil convívio diário coloca cada qual no seu lugar; a verdade aflora sem máscaras, e, à medida que se desenvolve a vida ordinária, vai se aparecendo a imagem real”.

– No imaturo, o amor fica “cristalizado”, como diz Stendhal, nessa fase de deslumbramento, e não se aprofunda na “versão real” que o convívio conjugal vai desvendando. Quando o amor é profundo, as divergências que se descobrem acabam por superar-se; quando é superficial, por ser imaturo, provocam conflitos e frequentemente, rupturas.

– A pessoa afetivamente imatura desconhece que os sentimentos não são estáticos, mas dinâmicos. São suscetíveis de melhora e devem ser cultivados no viver quotidiano. São como plantas delicadas que precisam ser regadas diariamente. “O amor inteligente exige o cuidado dos detalhes pequenos e uma alta porcentagem de artesanato pisicológico” – Enrique Rojas.

A pessoa consciente, madura, sabe que o amor se constroi dia após dia, lutando por corrigir defeitos, contornar dificuldades, evitar atritos e manifestar sempre afeição e carinho.

– Os imaturos querem antes receber do que dar. Quem é imaturo quer que todos sejam como uma peça integrante da máquina da sua felicidade. Ama somente para que os outros o realizem. Amar, para ele, é uma forma de satisfazer uma necessidade afetiva, sexual, ou uma forma de auto-afirmação. O amor acaba por tornar-se uma espécie de “grude” que prende os outros ao próprio “eu” para completá-lo ou engrandecê-lo.

Mas esse amor, que não deixa de ser uma forma transferida de egoísmo, desemboca em frustração. Procura cada vez mais atrair os outros para si e os outros vão, progressivamente, afastando-se dele. Acaba abandonado por todos, porque ninguém quer submeter-se ao seu pegajoso egocentrismo; ninguém quer ser apenas um instrumento da felicidade alheia.

Os sentimentos são um caminho de ida e volta; deve haver reciprocidade. A pessoa imatura acaba sempre queixando-se da solidão que ela mesma provocou por falta de espírito de renúncia. A nossa sociedade esqueceu quase tudo sobre o que é o amor. Como diz Enrique Rojas: “Não há felicidade se não há amor e não há amor sem renúncia. Um segmento essencial da afetividade está tecido de sacrifício. Algo que não está na moda, que não é popular, mas que acaba por ser fundamental”.

Fonte: A Maturidade, de Rafael Llano Cifuentes, Editora Quadrante, São Paulo 2003.

Frente ao erro, o recomeço!

Para quem acha que perdeu o tempo de fazer boas escolhas: recomece!

Depoimento da minha querida amiga Marília Coelho, mãe de 4 filhos, que eu admiro tanto, escrito com muito amor pra este espaço.

“Há nove anos minha estrada começou a se tornar cada vez mais estreita e eu, especialmente no início, tentava procurar brechas mais largas para caminhar.
Mas eu me esquecia das palavras de Jesus: ESFORÇAI-VOS para passar pela porta estreita.
E a nossa tendência realmente é procurar seguir a lei do menor esforço.

Há nove anos me tornei mãe, um pouco antes de completar um ano de matrimônio. Os olhos dos outros para mim e meu marido já eram de compaixão: poxa, nem “curtiram” o casamento.
Hoje, quando nos perguntam se estou esperando o primeiro filho (obrigada por me acharem jovem, haha), e eu respondo que é o quarto, e, ainda mais, quando descobrem que é uma menina depois de três meninos, a frase campeã é: agora parou, né?

A mesma frase que eu digo quando quero que meu filho pare de importunar o irmão, rs.
Isso hoje me incomoda, apesar de não parecer, mas, refletindo sobre isso, sobre como deveria reagir, sobre como deveria responder a esse tipo de pergunta, encontrei-me comigo mesma há 9 anos.

Eu era e pensava exatamente como essas pessoas que me questionam hoje. Não me casei pensando em ter filhos tão cedo ou pensando que poderia ter muito filhos ou quantos filhos Deus poderia me dar.
Dei muita tv, galinha pintadinha e afins, para distrair meu filho quando eu queria ter sossego e dar comida pra ele sem resistência. Terceirizei os cuidados dos meus primeiros filhos porque precisava trabalhar, fazer pós-graduação, ganhar dinheiro para poder novamente terceirizar sua educação. Gritei (e ainda grito, às vezes, 😔) quando queria que me escutassem e achava que deveriam obedecer a mim sem tentar entender o que estavam sentindo ou pensando. Isso e outras coisas mais, que eram essa tentativa de buscar uma porta ou uma estrada mais larga.
Mas Deus, em sua infinita misericórdia, foi me mostrando que o amor verdadeiro não era apenas encher de beijos e abraços meus filhos, sentir saudades deles e ajudá-los a fazer as tarefas escolares, embora isso também fosse importante. O amor verdadeiro era olhar pra eles como pessoas, de corpo e alma, dadas a mim como dom, como aqueles talentos distribuídos pelo patrão aos empregados, na parábola contada por Jesus.

Meus filhos não são meus. Não vieram para satisfazer meus desejos, não vieram para me realizar, para me fazerem feliz, para cuidarem de mim na velhice ou para me encherem de orgulho. Mas eles foram confiados a mim e ao meu marido, para que os eduquemos, para que os façamos render, desenvolver todo o seu potencial humano e espiritual, serem grandes homens, não medíocres.

E eu estava agindo, muitas vezes como aquele empregado que, por comodismo, enterrou o talento e depois o devolveu ao patrão.
Aos poucos, Deus me foi mostrando que a porta era estreita mesmo. Que me exigiria esforço, empenho, não só nos primeiros meses de vida, mas em toda a vida.

E eu fui me deparando com os erros que cometi. E buscando caminhos para consertar os erros. Não é sentimento de culpa, gente. Quando digo que errei, é porque reconheço que errei e isso não é ruim! Pelo contrário, só assim é possível depois acertar e consertar os erros.

Mas não nego que passei por uma grande angústia, quando comecei a descobrir quantas coisas eu tinha deixado de fazer ou que tinha feito errado nos primeiros anos da vida dos meus filhos maiores. Porque eu aprendi em cursos ou lendo livros como educar, mas não como reeducar ou como consertar vícios ou comportamentos que eu mesma tinha criado neles.

Eu achava que não teria solução, até eu vir que, na verdade, só me restaria recomeçar de onde estava. E novamente seria necessário o ESFORÇO. Com certeza maior do que seu eu tivesse feito certo desde o início.

Hoje eu sou outra mãe. Ainda cheia de falhas, mas muito mais consciente do que fazer para que meus filhos sejam homens íntegros e felizes. Hoje posso dizer que, sim, sempre é tempo de recomeçar, claro que, quanto mais cedo melhor, mas nunca se deve desistir ou desanimar diante dos erros do passado. Só temos o hoje, já dizia Santa Teresinha, e é nele que tento ser melhor para os meus filhos. Hoje me esforço muito mais, tentando dar a eles muito mais minha presença, meu tempo, minha escuta, meu interesse, meus estudos, os limites de que eles precisam, a minha fé, enfim, o que de melhor eu posso dar. Não é fácil, cansa muito, mas a recompensa de ver aquele comportamento ruim do seu filho mudar, ou o gosto pela leitura crescer, ou os bons hábitos se desenvolverem, isso supera, e muito, qualquer cansaço.

Ao final da minha jornada nesta vida só quero poder olhar para meu Criador e dizer a Ele: combati o bom combate. Aqui tens, Senhor, teus filhos e os terás contigo pela eternidade.”

Marília Coelho

Eu, meus cabelos e o nascimento da minha filha

 

Quando olho para as fotos da minha infância, vejo – e relembro – que havia uma dose extra de disposição da minha mãe, das minhas tias, em cuidar dos meus cachos. Mas também havia situações em que meus cabelos finos e frágeis eram penteados ~ a seco ~ fazendo com que perdessem a forma, ou se transformassem numa tentativa frustrada, claro (!), de ser quem eles não eram.

O tempo passou, eu cheguei à adolescência, passei por todos os processos hormonais, sociais etc que são bem próprios dessa fase. Mas o rótulo de todos os produtos que se dignavam a cuidar de cabelos crespos e cacheados utilizava os piores termos: rebeldia, controle, estique, dome (hoje, ainda bem, isso mudou muito!). Para mim a mensagem era única: não aceite. Tente mudar!

Ok. O tempo passou, eu fui crescendo e aprendendo a cuidar. Mas aí a vida profissional chegou e eu me vi resgatando coisas no meu baú antigo: vou esticar, é mais prático, dá menos trabalho, etc, etc, etc etc. E assim foi. Eu entrei naquele ciclo de, a cada punhado de meses, sentar numa cadeira e ser exposta a todo tipo de química para ficar ~ MARAVILHOSA ~! Depois das sessões, e durante, tinha tontura, tinha cheiro forte, desconforto. Mas tava liso. Tava um ~ charme ~. Ganhei também um vida de caspas… O couro cabeludo reclamava e descamava. Como resolver? Não sei… O importante é que eu estava lisa e vivendo uma ilusão de que dava menos trabalho.

Mentira. Dava mais trabalho, sim. Pra mim, dava.

Mas aí, mais um tempo se passou e Deus – sim, Deus! – começou a me incomodar. Tinha alguma coisa entre o meu cabelo e a minha história. Tinha alguma coisa que Deus queria que eu resolvesse: por que você não aceita, Narlla? Por quê?

– Ah, Jesus! Claro que eu aceito. É temporário, dá menos trabalho… [E enchia a cabeça de Nosso Senhor com minhas desculpas para não olhar para a minha própria história, para o meu cabelo, para a minha vida, para tudo o que havia sido vivido. Não, o problema não era ter uma progressiva. A minha não-aceitação capilar era apenas um sintoma da minha não-aceitação da minha própria imagem. Minha identidade estava ali, na “mesa de cirurgia de Deus”. Ele só queria que eu compreendesse que o problema não era “fazer escova no cabelo”, mas não aceitar um caminhão de coisas só ~ porque não ~, ou porque alguém disse que não era daquele jeito.]

Aí eu casei. Aí eu engravidei do meu primeiro filho. Um menino. Ok. Revolução.

Aí eu engravidei de novo: menina! RE-VO-LU-ÇÃO!

Que alegria, que bênção! Uma menina!

Aí Deus – de novo! –, que não costuma nos deixar em paz até que compreendamos as coisas que nos farão mais felizes e plenos, me lançou em mais um mar de amor e cura. Eu acolhia uma mulher no meu ventre. Quais são as sementes que quero deixar para ela? Que tipo de noção de dignidade eu quero transmitir para a minha filha? Que tipo de mulher eu, como mãe, quero entregar para o mundo e para Deus? No mínimo, uma mulher reconciliada e feliz! Sei também que nem tudo passa pelas minhas mãos e seria muito orgulho pensar assim. Mas eu sei do que me cabe. Tô descobrindo, na verdade.

Não é só cabelo. Espero que isso fique claro. Até porque, vez ou outra, eu estico, mudo, repagino os meus. E adoro. Mas é mais intenso, mais profundo. É a minha identidade. É o tipo da coisa que, se não está resolvido dentro de mim, dificilmente eu consigo lançar alguém que nasceu de mim numa experiência verdadeira. Eu não poderia ser uma fraude para a minha filha. (não estou falando só de cabelo, repito!!!)

– Deus te fez linda, minha filha. Foi Deus quem desenhou todos os seus traços e ele fez tudo perfeito.

Então, eu entendi, acolhi, entrei no processo e estou aqui para contar a história. Um caminho de cura da auto-imagem que passou por muitas coisas. Mas essencialmente pela maternidade, pelos cabelos: os meus e os da Aurora. Pelos nossos cachos. Ou, como ela diz: “caços”. 

Filha, quem desenhou os seus cabelos?
– Foi o Papai do Céu.

Filha, vamos fazer massagem nos cabelos:
– Vamos, mamãe. Eu vou ficar mais linda. Vou ficar “igual à mamãe”. O papai vai achar lindo.

Mas, e se no futuro, ela vier a não aceitar os cachinhos? O que ela vai fazer com os cabelos já não será mais da minha conta. Mas, certamente, eu espero estar lá para ajudá-la a acolher o essencial, que não é ter cachos ou lisos, mas saber-se criada, amada e acolhida por Deus.

“Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso! Pelas vossas obras tão extraordinárias, conheceis até o fundo a minha alma.” – Salmo 138

Castidade no namoro

Para quem é católico e vive o propósito de chegar ao casamento crescendo cada vez mais na virtude da castidade, deixando a experiência do sexo – que não envolve apenas união física – para o ambiente definitivo do matrimônio, eu recomendo:

– Tirar o foco das proibições, do “não pode”; É importante, claro, estabelecer limites claros, ainda que não ditos ou ditos. Fazer da proposta proibitiva o objetivo do namoro aumenta potencialmente o risco de falhar na intenção final. O objetivo final do namoro não é = “não fazer sexo”; Parece estranho, né? Mas, ao mesmo tempo em que o tempo do namoro não é o tempo da intimidade física, não é também o tempo de ficar só pensando em como se livrar “das ocasiões de pecado”. Não sei se deu pra entender.

– Namorar é, antes de tudo, uma relação de amizade. E amizade envolve liberdade, alegria, confiança, conhecer coisas juntos, conhecer o outro, conhecer a outros. Abrir-se aos amigos, à família, à oração, à caridade, ao serviço. Namoro não é = se encontrar para trocar beijos calientes ou repetir as condutas do pessoal da Malhação (Malhação ainda passa na TV? Rs). É mais, muito mais! É um belíssimo horizonte de conhecimento e autoconhecimento. A pessoa que está diante de você tem uma longa história – antes de você chegar na vida dela – e é um espaço sagrado.

– Namorar não é o tempo em que você se vê livre de conhecer os outros estados de vida: sacerdócio e celibato. É evidente que, já no namoro, as janelas vão se fechando à medida em que o tempo passa e você vai se decidindo pelo outro [que janelas são essas? Vou exemplificar: não posso ficar namorando, namorando, namorando indefinidamente e, ao mesmo tempo, nutrir dúvidas persistentes com relação a outras possibilidades e nunca me posicionar diante delas]. Mas no namoro a gente tem a grande chance de se aproximar, numa atitude de comunhão, dos demais estados de vida. Se essa aproximação gera pânico e desespero, tem algo errado. Precisa avaliar com cautela. Ela deve ser motivo de alegria, segurança e seta para o matrimônio, já que estamos falando de escolhas – ainda que futuras – definitivas e maduras.

– Há coisas na vida que nos expõem tão intimamente e profundamente, que precisam de um ambiente seguro, sacramental e maduro para serem vividas. Concordando ou não, a experiência conjugal é assim.

– No mais, namorar é uma delícia! Vale a pena. Casar é melhor ainda. Recomendo. Ter filhos, então. <3 Tem dia para tudo: para morrer de raiva, de alegria, de cansaço, de dor, de amor. Tem dia pra tudo, tem tempo pra tudo.

 

Vamos desromantizar a maternidade?

Não, não vamos.

Ninguém fala que é tão difícil. Mentira. Todo mundo fala. Fala tanto que desencoraja. Fala tanto que mina a virtude, o desejo de viver a experiência individual. Porque parece que maternidade é só dor, desgraça, privação de sono e fralda suja. 

E puerpério é treva, dor e lágrimas. Apenas. Mas quando você não sabe o que é ou nunca passou por um – que tenha sido desafiador, porque puerpério não é sinônimo de depressão – não adianta falar, problematizar, “desromantizar” o Diabo a 4. Não adianta. Ou você enfrenta ou sucumbe. Ou você amadurece ou amarga.

Maternidade supõe generosidade. Se os filhos sempre nos exigissem o que está de acordo com nossas possibilidades ou não alterassem nossa preciosa rotina e ritmo de vida, não haveria generosidade. E o coração permaneceria do mesmo tamanho.

E, gente, vamos conversar. O amor expande. Se não expande, se não desinstala, se não propõe melhora, se não arrasta para a virtude, tem alguma coisa bem errada.

Então vamos deixar de conversa fiada e tirar o foco do lugar errado.

Ser mãe é bom, sim. É maravilhoso. Divino. Encantador. A dor não diminui nada disso, apenas engrandece a experiência.